METAS:
"O pagador de promessas..."
Conheci Mafalda, minha primeira namorada, aos 13 anos de idade, no dia 16 de dezembro de 1972. Praticamente um mês depois da morte da minha mãe. Mamãe morreu no dia 20 de novembro daquele ano, 9 meses depois do falecimento de Aguinaldo, meu pai. Mafalda e eu estudávamos em escolas salesianas, separadas pela Matriz da Dom Bosco, bem no centro delas duas. Ao contrário do que possa parecer, não nos conhecemos na Igreja. A gente se cruzou na biblioteca pública municipal de São João del-Rei, e na base do agravo.
Acostumado a tirar leitura no primário, eu lia em voz alta na biblioteca. E Mafalda ralhou comigo. Empurrando minha carteira e me chamando atenção para o “silêncio”. Assustado, eu gritei: “sou contador de causos!” A gente riu daquela situação inusitada e boba, e começou a namorar dentro de um abraço, pra mais de 5 anos. E naquele dia da afronta, fiquei sabendo de suas leituras e, ela, das minhas. Eu lia o que se lia naquela época: Machado de Assis, José de Alencar, Coelho Neto e José Lins do Rego. Foi Mafalda que me apresentou a Safo de Lesbos, Gabriela Mistral, Cecília Meirelles, Florbela Espanca e Raquel de Queiroz. Da Safo, aliás, ela trazia, anotada num diário, uma tradução feita diretamente do grego por uma irmã da Sardenha, sua professora, Inezita de Sá, muito conhecida e respeitada pela Congregação Salesiana.
A irmã Inezita, buscando estreitar as relações entre as escolas de meninas e de meninos salesianos, propôs à direção dos colegiados a criação de um “Grupo de Jovens”: METAS (Movimento Estudantil de Teatro Amador Salesiano). Na verdade, um clube de leitura de “textos de palco”. Mafalda e eu ficamos responsáveis por atrair voluntários para o Metas. A Mafalda conseguiu 15 meninas e eu apenas 3 meninos. Dos três, só Hélio Augusto e eu ficamos, até o passamento de dona Inezita, 6 anos depois. Mafalda, minha namorada, tinha morrido de câncer um ano antes. Não fosse o teatro, eu teria morrido com ela também.
Escrever e encenar palavras foi a minha salvação. Desde o passamento de meu avô tenho sido assombrado pelo acabamento. A morte já não me assombra mais. Perdi umas 30 pessoas muito próximas do meu bem querer. Delas todas, a da Mafalda, minha primeira namorada, foi a mais desesperadora. Fiquei pra mais de semana distante das pessoas, socado pelas matas e morros da Mantiqueira. E pra mais de mês não me alimentei direito. Queria, literalmente, morrer, mas faltou coragem ou fraqueza para acabar com a dor. Aliás, a dor esfolava e moía o tutano do meu esqueleto. Não me conformo até hoje. Mafalda passou mal no nosso ensaio de segunda-feira. Os médicos disseram não ser nada demais. E ela morreu na sexta-feira daquela semana, “de câncer”, disseram. Que câncer era aquele? Pra matar, no de repente, uma moça saudável de 19 anos? Até hoje eu não sei. Mafalda era filha única, e o pai dela se matou 6 meses depois, jogando o carro num abismo. A mãe, mudou-se de São João. Notícia dela não tive mais.
Durante os 6 anos de existência do METAS, lemos e encenamos vários autores e autoras nacionais. E nos “laboratórios”, performamos Henrik Ibsen, “Um inimigo do povo” e “Uma casa de bonecas”; Luigi Pirandello, “Seis personagens à procura de um autor” e “Esta noite se improvisa”; e de Eugènie Ionesco, “O rinoceronte”, “As cadeiras” e “A cantora careca”. A primeira peça que lemos e encenamos foi “Pluft, o fantasminha”, de Maria Clara Machado; e a última, “O pagador de promessas”, de Dias Gomes.
Por ironia do acaso, Mafalda e eu seríamos os protagonistas dessa peça de Dias Gomes. Mas o tal “câncer” a levou de nós. E Gabriela e eu cumprimos a jornada dela, a nossa, a de dona Inezita e a do METAS. Desde a morte repentina da Mafalda, todo o nosso grupo foi tomado de martírio, nos ensaios e na apresentação, sobretudo. Aliás, quando acabamos de encenar “O pagador de promessas” estávamos todos nós moídos de dor, chorando muito. Daí, o pessoal dos bastidores mais o Hélio Augusto, começaram a gritar: “merda!” “merda!” “merda!” E a gente entrou no clima da “merda!” e largou de chorar. E começamos a rir para desfazer o doído da dor.
Dizem que a irmã Inezita, morreu de “sofrer dor demais.” Também foi no de repente que ela se foi embora. Dormindo, feito um anjo, aos 76 anos de idade.
Nesses anos todos fui salvo pela palavra escrita, falada e encenada. Escrever e melodiar palavras foi a minha salvação. E quando eu me for embora, que seja no descanso do repente.








Ah, Coquinho querido. Que dor a sua. Sei tão bem o que é perder o bem querer no de repente do dia. Foi assim que perdi o grande amor da minha vida. A sua Mafalda me comoveu por demais. Mesmo sem ter terminado de ler esta news já disse para os meus botões, "essa Mafalda é demais, já é das minhas, ler Safo não é para poucos" (eu sei porque estou lendo agora). E aí Mafalda se vai. Eu gritaria Merda até me acabar também. Ainda bem que Mafalda nos deixou você, com suas palavras, suas poesias, seus pensares e seus contares. Abraço carinhoso.
Muito comovente... Obrigada... Quanto as perdas ...elas são devastadoras na vida da gente... Por outro lado, nos ensina e nos faz fortes.